Constrangedor
Brasil, o maior jejum e a maior crise de identidade de sua história no futebol
A Noruega eliminou o Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Parece até mentira escrever uma coisa dessas, mas é isso aí. Histórico pra todos os lados. Decidiram o goleiro norueguês, que fez o jogo da sua vida, defendendo pênalti e fazendo uma outra defesaça, e o poder de Erling Haaland no ataque, como goleador: primeiro, de cabeça, como se fosse um taque; depois, em chute seco. Pelo Brasil, falharam todos: jogadores e treinador.
A busca por culpados é longa, pois o resultado em New Jersey foi a coroação perfeita do pior ciclo de Copas do Mundo na história da seleção brasileira. Vai da bagunça da CBF ainda sob o comando de Ednaldo Rodrigues, aquele longo período sem treinador, até as péssimas mudanças que Carlo Ancelotti fez no time, passando pela passividade geral dos brasileiros contra uma Noruega que, com 2 a 0 no placar, trocava passes no campo de ataque como quem estivesse dando “Olé!”. A Noruega trocou quase o dobro de passes do Brasil na partida!
Bruno Guimarães, um dos grandes nomes do Brasil até então, bateu muito mal um pênalti. Vinícius Júnior, o melhor da seleção nos quatro jogos, tirou da manga uma jogada espetacular que Endrick, de maneira até surpreendente, desperdiçou, mas Vini também não fez um bom jogo. Talvez o melhor do Brasil tenha sido o goleiro Alisson, que foi obrigado a fazer boas defesas como não havia ainda durante este Mundial. Mais uma vez, o Brasil volta para casa com muito a se pensar e muito a responder.
A certeza é que esta resposta não será dada por Neymar. Ainda bem. O camisa 10 teve um desfecho tão constrangedor quanto ridículo ou sem-noção, em seu tão aclamado sonho de ser campeão mundial. Fez o gol de pênalti, o do 2 a 1. O gol com a pior sensação desde aquele de Oscar, no 7 a 1 de 2014. O Brasil perdia nos acréscimos, e depois de estufar as redes norueguesas a referência de toda uma geração fracassada optou por provocar o goleiro adversário. Ego. Ego, ego, ego, ego.
A história de Neymar pela seleção brasileira encontrou um ponto final. Já era hora. E uma coisa é certa: não dê ouvidos para quem colocar Neymar no Top 10 ou Top 20 de maiores jogadores da história da Seleção. Respeitem o tamanho, a história, de quem foi campeão. De nomes como Zito, Vavá e Amarildo (para ficar apenas nestes), completamente esquecidos ao invés de lembrados e respeitados.
Vinícius Júnior ainda terá novas chances no futuro. A referência da seleção brasileira, no entanto, agora herda um Brasil vivendo sua maior crise de identidade. O que é o Brasil? O que é o “respeita!!!”, apontando os dedinhos para as cinco estrelas? A Seleção agora se encontra em seu maior jejum no título que a define. São 28 anos, a mesma diferença que havia entre a primeira Copa do Mundo, em 1930, até o primeiro título brasileiro, em 1958, com o agravante de agora termos tido mais edições disputadas – uma vez que a Segunda Guerra Mundial impediu a realização das Copas nos anos 1940.
O que é a seleção brasileira? Na próxima Copa do Mundo, continuará sendo o país com mais títulos conquistados. E daí? O Brasil caiu para a Noruega nas oitavas de final de um Mundial. Uma Copa que acaba sendo a pior dos brasileiros desde 1966. É para repensar muita coisa e entender que a crise de identidade do nosso futebol atingiu sua rachadura máxima. Que essa nova geração, pós-Neymar, consiga reconstruir, nos próximos anos, o que parece estar destruído agora.


A CBF matou o futebol brasileiro com um sistema populista, alicerçado puramente no imediatismo. Trocar de técnico a cada derrota é um desperdício de experiência digno de um clube de esquina — mas, para a cúpula da entidade, isso não é um erro; é uma estratégia.
A CBF não funciona como uma instituição esportiva, mas como uma holding de entretenimento. Enquanto a "banca" continuar lucrando com patrocínios, amistosos globais e direitos de transmissão, a engrenagem continuará girando, pouco importando o fracasso em campo.
A derrota recorrente não é um acidente, é o preço cobrado pela rigidez de um sistema que precisa do caos para se blindar.
Para quem está no topo, a taça é apenas um bônus de relações públicas, mas a manutenção do poder político e dos lucros — através da distribuição de cargos e verbas para federações aliadas — é a única meta real.
O futebol é, por natureza, caótico e ilógico; vence quem melhor o administra — não quem o trata como uma planilha de lucros.
Insistir em importar modelos europeus, ignorando nossa própria vocação, é um erro crasso. Não se trata de abandonar a tática, mas de não ser deixado "engolido" por ela.
Não somos a Europa; nossa força sempre residiu na absoluta capacidade de adaptação, resiliência e coragem de assumir riscos.
Enquanto a camisa da Seleção for apenas uma vitrine para a valorização de ativos de mercado — onde convocações muitas vezes atendem a interesses de agentes e grupos políticos — ela continuará sendo apenas um símbolo desprovido de identidade.
O "espírito" que animava a seleção até os idos de 2002, a criatividade diante do imprevisto e a sagacidade de criar o caos no adversário, foram sufocados pela canalhice de uma gestão que não precisa de um time vencedor para prosperar.
Se o cenário permanecer inalterado, o Brasil dificilmente conquistará títulos relevantes nas próximas décadas, pois o sistema atual não tolera a excelência: a excelência exige transparência, e a transparência é a inimiga do seu modelo de negócio.